Tudo o que já foi dito a respeito de Arthur Friedenreich ganhou no século XXI a aura de mito, de lenda. Maior artilheiro do futebol mundial em todos os tempos, primeiro craque do futebol brasileiro reverenciado no exterior, batedor de pênaltis implacável. Não faltam superlativos em sua longa carreira de 26 anos, iniciada em 1909.

Pesquisas recentes (incluindo aí meu livro “O Tigre do Futebol”, de 1999), no entanto, apararam arestas e lançaram luzes sobre o que de fato representou Friedenreich para a sociedade brasileira no início do século passado.

Através dessas biografias, pudemos constatar que de fato ele não marcou mais gols que Pelé e nem era um batedor de penalidades tão perfeito assim. Porém, Fried não pode ter sua importância diminuída quando pensamos em futebol num aspecto cultural e de extrema importância para o povo local.

De um ponto de vista antropológico, o filho de alemão e de uma mulata cruzou as fronteiras que delimitavam o esporte bretão e pode ser apontado como um elemento de relevância considerável para o cotidiano do Brasil nos primeiros 50 anos do século XX.

Exagero?

De jeito nenhum. Era difícil o cidadão comum, naquela época, não parar tudo o que estava fazendo para ouvir Fried falar ao rádio. Nem o Presidente da República, Epitácio Pessoa, tinha tamanha atenção.

Quando o País conquistou seu primeiro título internacional (o Sul-Americano de 1919) com um gol do craque mulato – outro fator interessante, afinal era um esporte de brancos – houve pela primeira vez por essas bandas um Carnaval fora de época cujo tema era o futebol.

Jornais da época, tão indiferentes ao futebol então, não se privaram de embarcar na festa fazendo do pé esquerdo de Fried o alvo de suas capas. E assim foi enquanto o centroavante esteve em campo.

Em 1925, o clube que defendia – o Paulistano – foi o primeiro time brasileiro a fazer partidas na Europa. Fried já era o maior de todos os “boleiros” do Brasil, mas ainda era pouco conhecido no Velho Continente. Bastou uma partida para que ele fosse coroado Rei entre os reis do jogo de bola, segundo os jornais franceses. O Paulistano venceu a forte seleção local por 7 a 2 (veja o vídeo neste site), Friedenreich marcou três vezes. Detalhe: não faltaram neve e lama – ambientes totalmente hostis ao time tropical.

As duas histórias acima apenas ressaltam o talento de Fried dentro das quatro linhas. Como personagem de uma sociedade ainda em formação, ele encarnou a tão propalada “malandragem” latina que temos hoje como representantes craques como Romário e Ronaldinho. Além disso, Friedenreich estava relacionado a tudo o que de emblemático acontecia no País na época.

Quando estourou a Revolução Constitucionalista, em 1932, o craque não pensou duas vezes; doou seus troféus para a causa que acreditava. Além disso, foi para o front e comandou um batalhão de 800 esportistas. Enfim, foi um exemplo.

Aos 78 anos, morreu sozinho – amparado apenas pela esposa, Dª. Joana – esquecido, esclerosado e magoado com o futebol.

Um triste final para um gênio, mas que “de alguma forma, encontrou a eternidade que tanto procurava nos gols mágicos de Pelé, nos dribles geniais de Garrincha, nas bicicletas inacreditáveis de Leônidas e nos doces sonhos dos moleques de rua que correm atrás de uma bola de meia”.

Alexandre da Costa
Biógrafo de Friedenreich

 
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